Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal

Raphael Vieira Monte Alto, Marco Antônio Gallito e Gustavo Oliveira dos Santos

INTRODUÇÃO

A cimentação é uma etapa fundamental no protocolo clínico de restaurações indiretas, e que vem sendo cada vez mais aprimorada com o surgimento de novos agentes cimentantes. Um material de cimentação ideal deve apresentar propriedades mecânicas satisfatórias, adesão às estruturas dentais e aos materiais restauradores, baixa solubilidade e adequada viscosidade, dentre outras características.

As cerâmicas eram inicialmente cimentadas com o cimento de fosfato de zinco ou cimentos ionoméricos. Tais cimentos, muitas vezes, levavam ao insucesso destas restaurações pelo deslocamento das mesmas, infiltração marginal ou problemas estéticos. Com o surgimento das resinas compostas e dos sistemas adesivos, tornou-se viável o desenvolvimento dos cimentos resinosos. Estes cimentos apresentam a mesma composição das resinas compostas, constituídos basicamente de uma matriz orgânica e partículas de cargas tratadas com silano, possuem características adesivas, fluidez necessária para cimentação, resistência mecânica, propriedades estéticas e são insolúveis no meio bucal. Por essas razões, atualmente, são hoje os materiais mais comumente utilizados para cimentação de restaurações de cerâmica. Além dessas características, os cimentos resinosos apresentam adesão às estruturas dentais, quando utilizados em conjunto com os sistemas adesivos e aos materiais restauradores estéticos indiretos, quando estes forem silanizados.

Os cimentos resinosos podem ser autoativados, fotoativados ou duais. Os cimentos autoativados são utilizados para cimentação de todos os tipos de próteses. Os fotoativados são empregados, principalmente, para cimentação de laminados cerâmicos, e os cimentos duais são preferidos para a cimentação de restaurações em cerâmica e pinos pré-fabricados, por apresentarem uma ativação química lenta e um extenso tempo de trabalho. Estes cimentos, quando expostos à luz, sua presa torna-se rápida, promovendo assim, uma maior conversão de monômeros em polímeros. O objetivo desse estudo foi relatar a sequência clínica de cimentação adesiva de uma restauração estética em cerâmica pura, utilizando o cimento resino dual AllCem (FGM).

SEQUÊNCIA DE CIMENTAÇÃO

O paciente encontrava-se insatisfeito com o seu sorriso por apresentar uma coroa total em resina acrílica com alteração de cor no elemento 22 (Fig 1 ). Inicialmente foi realizada a remoção desta restauração (Fig. 2) e, em seguida, o refinamento do preparo para a confecção de uma coroa total em cerâmica livre de metal (Fig. 3). Posteriormente, foi executada uma moldagem utilizando um silicone por adição por apresentar alta estabilidade dimensional (Fig. 4) e, imediatamente após, foi confeccionado uma restauração provisória em resina bisacrílica (Fig.5). A seleção de cor foi realizada utilizando a escala Linear Guide 3D Master (Vita, Alemanha), o molde foi imerso em glutaraldeído a 2% por 10 minutos para desinfecção e enviado ao laboratório de prótese, onde se procedeu à obtenção do modelo, confecção do casquete e aplicação da cerâmica de revestimento (Figuras 6 e 7).

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Fig 1. Coroa em resina acrílica no elemento 22, com alteração de cor

 

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Fig 2. Aspecto do remanescente dental após a remoção da coroa

 

03 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 03 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 3. Preparo refinado

 

04 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 04 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 4. Corte sagital do molde de silicone por adição, sendo possível observar a cópia do término do preparo

 

05 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 05 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 5. Restauração provisória em resina Bisacrílica

 

06 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 06 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 6. Superfície interna da restauração em cerâmica pura

 

07 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 07 1024x685 1 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 7. Condicionamento da superfície interna da peça protética

Levada a boca, a restauração teve suas superfícies proximais ajustadas e os movimentos oclusais reproduzidos para a determinação de possíveis contatos prematuros e interferências. Após avaliação final da cor, forma e textura o trabalho foi considerado adequado para a cimentação.

Consequentemente, realizou-se a cimentação da peça protética. Foi realizado o condicionamento interno da peça por meio de um condicionador de porcelanas à base de ácido hidrofluorídrico a 10% (Condac Porcelana, FGM, Brasil) por 20s (Fig. 8 e 9). Após esta etapa, a peça foi lavada até a total remoção do produto e secada com jatos de ar, apresentando então um aspecto opaco, característico do correto padrão de condicionamento (Fig. 10).

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Fig 8. Condicionador de porcelanas Condac Porcelana (FGM)

 

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Fig 9. Superfície interna da peça protética após condicionamento

Na sequência, foi aplicado um agente silano Prosil (FGM) com o auxílio de uma ponta Cavibrush (Figuras 11 e 12). Finalizada a silanização, a superfície da peça apresentou-se brilhante estando pronta para a cimentação definitiva. O condicionamento do remanescente dental foi obtido através do uso do ácido fosfórico a 37% Condac 37 (FGM, Brasil) por 15 s (Figuras 13 e 14). Após o condicionamento, a superfície foi lavada, seca e um sistema adesivo foi aplicado sobre o remanescente dental. Procedeu-se a escolha da cor do cimento (A3) e o mesmo inserido no interior da peça com o auxílio de uma a ponteira de automistura (figuras 15 e 16) e a coroa de cerâmica foi conduzida até o preparo. Os excessos foram removidos e a polimerização foi realizada com o auxílio de um aparelho fotopolimerizador (Fig. 17).

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Fig 11. Silanização da superfície interna da peça protética com Prosil (FGM)

 

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Fig 12. Silanização da superfície interna da peça protética com Prosil (FGM)

 

12 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 12 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 13. Condicionamento ácido do remanescente dental, com ácido fosfórico por um período de 15 segundos

 

13 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 13 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 14. Ácido fosfórico a 37% (Condac 37 ,FGM)

 

14 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 14 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 15. Inserção do Cimento resinoso AllCem no interior da peça (FGM)

 

15 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 15 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 16. Inserção do Cimento resinoso AllCem no interior da peça (FGM)

 

16 Cimentacao adesiva em coroas ceramicas livres de metal 161 - Cimentação adesiva em coroas cerâmicas livres de metal
Fig 17. Inserção do Cimento resinoso AllCem no interior da peça (FGM)

 

DISCUSSÃO

A técnica de cimentação adesiva exige do operador conhecimento sobre o mecanismo de adesão. Para obter êxito no procedimento, é necessário realizar o tratamento da estrutura dental remanescente e da superfície interna da restauração indireta previamente à cimentação.

O condicionamento da estrutura dental remanescente com ácido fosfórico de 35 a 37% proporciona uma desmineralização tanto em esmalte, quanto em dentina, visando à hibridização. No esmalte há a dissolução do centro ou periferia da cabeça dos prismas e na dentina ocorre a desmineralização parcial da dentina peri e intertubular, com exposição das fibras colágenas, promovendo assim a formação da camada híbrida, responsável pela adesão.

O condicionamento cerâmico promove a união químico-mecânica entre a estrutura dental e a superfície interna da peça protética. O ácido fluorídrico a 10% (Condac Porcelana) é utilizado para esta finalidade e age na fase vítrea de algumas cerâmicas. Este condicionamento é importante para que ocorra uma interação entre o cimento resinoso e a restauração de cerâmica, aumentando assim, a retenção e à resistência da restauração.

A silanização é realizada após o condicionamento da superfície interna da restauração e é de fundamental importância para esta superfície compatível quimicamente com o cimento resinoso. O Prosil (FGM) é uma solução etanólica de 3-Metacriloxipropiltrimetoxisilano hidrolizado, que pode ser utilizado como agente de união química em processos de adesão e cimentação de peças em cerâmica, cerômero e pinos de fibras de vidro, promovendo assim, o aumento de até 30% da capacidade adesiva. Este silano promove a união entre interfaces, devido à elevada reatividade que possui com monômeros metacrílicos e superfícies contendo elementos inorgânicos.

O cimento resinoso AllCem (FGM) é um cimento de cura dual, radiopaco e com excelentes propriedades estéticas. A combinação dos dois mecanismos de cura, fotoativado e quimicamente ativado, garantem a polimerização do produto em situações com e sem acesso de luz. Este cimento apresenta também excelentes propriedades adesivas, mecânicas e também facilidade de aplicação devido à seringa de corpo duplo. O uso desta seringa garante o correto proporcionamento do produto e as ponteiras de automistura garantem a homogeneidade das pastas, impedindo assim, a incorporação de bolhas, o que muito contribui para a efetividade da cimentação. Além dessas características, é importante salientar, que cuidados devem ser tomados durante a remoção dos excessos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cimentação adesiva é um passo importante para atingir o sucesso nas restaurações indiretas. Os produtos para cimentação adesiva Condac porcelana (FGM), Prosil (FGM) e AllCem (FGM), mostraram-se bastante eficientes na cimentação da restauração indireta referida no caso clínico em questão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Agra, C.M.; Vieira, G.F. Quantitative analysis of dental porcelain surfaces following different treatments: correlation between parameters by a surface profiling intrument. Dent. Mater J. v.21, p.44-52, 2002.
  2. Cura, C.; Matsumura, H.; Atsuta, M. Effect of different bonding agents on shear Bond strengths of composite-bond porcelain to enamel. J. Prosthet. Dent. v.89, n.4, p.394-399, 2003.
  3. Chen, J.H.; Matsumura, H.; Atsuta, M. Effect of different etching periods on the bond strenght of a composite resin to a machinable porcelain. J. Dent. Res. v.28, n.1, p. 53-58, 1998.
  4. Chen, J.H.; Matsumura, H.; Atsuta, M. Effect of etchant, etching periods and silane priming on bond strength to porcelain of composite resin. Oper Dent. v.23, n.5, 1998.
  5. Sheet, J.J.; Jensen, M.E.: Cutting interfaces and materials or etched porcelain restorations. A status report or the American Journal of Dentistry. Am. J. Dent. v.1, n.5, p.225-235, 1988.
  6. Badini, S.R.G. et al. Cimentação adesiva – Revisão de literature. Revistas Odonto. v.16, n.32, p.105-115, 2008.
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